Jeanine Rolim
Psicóloga, pedagoga, escritora e palestrante. Pós graduada na Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva de Reuven Feuerstein e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental. Com grande experiência em gestão educacional, atuou por dois anos junto à população de risco numa ONG colombiana. Atualmente é psicóloga clínica e palestrante nas áreas de psicologia e educação, além de comentarista de rádio e Tv nos temas relacionados a comportamento. Autora dos livros Bullying sem blá-blá-blá em suas duas versões (infantil, pais/professores).
corra

Corra Dianita, corra!

Aos 24 anos decidi ser voluntária numa ONG americana na Colômbia. Era minha primeira viagem de avião, e se não bastasse a emoção inerente a tal fato, o voo era nada menos que São Paulo – Cidade do Panamá. Localizaram-se no mapa? Pois é, foi assim que começou minha aventura latina rumo à Colômbia. Posso imaginar as sobrancelhas levantadas ao ler o nome deste último país, afinal, saindo do Brasil para lá, não há razão para ir até o Panamá. A não ser que a cia aérea decida brindar aos voadores novatos: escalas e mais escalas.

Presentes aéreos à parte, a viagem foi um primor… meu portunhol evoluiu significativamente entre contatos com los comisarios de bordo e alguns hermanos nos saguões.  Mas a emoção mesmo estava por vir! Desembarcar em Cali é, por si só interessante. Depois de pegar minhas bagagens na esteira uma porta automática se abriu e eu estava nada menos que ao ar livre, sem teto, paredes ou qualquer outro traço que lembre um aeroporto. Nada mais que o céu acima de minha cabeça.

Sai e fiquei ali parada com minhas duas enormes malas, em busca de alguém do grupo de norte americanos que lá estaria me esperando. De repente minha ansiedade se transformou em pânico: fui abordada por um bando de crianças que arrancaram as malas de minhas mãos e saíram pátio afora. Posso reviver a cena como se fosse hoje… o desespero tomou conta de mim, “minhas malas! E agora, estou na Colômbia sem nada, documento, roupas, nada!! Santo Dios!!”  – A essa altura já dominava o espanhol a ponto de rogar com mais fluência. Os supostamente usurpadores de bens alheios dirigiram-se todos para um mesmo lado e, obviamente, meus olhos afoitos os acompanharam na tentativa de chamar la policia  e reaver meus pertences. Mas antes disso meus olhos encontraram a Bob, Steve e tantos outros amigos que enfileirados gargalhavam audivelmente face ao meu sufoco. Ânimos recuperados, descobri que todos aqueles niños faziam parte do orfanato no qual eu iria trabalhar. Sua alegria era tanta em receber uma brasileira que viera ajuda-los que não me deixaram procura-los por nem mais um minuto sequer, indo ao meu encontro. Carinho esse que experimentei em cada um dos dias em que lá estive.

Mas se você é um bom viajante sabe bem que a cada destino, novos micos! Não bastasse o desespero diante da evasão saltitante de minhas malas, fiz ainda pior! Cá entre nós – e com todo respeito que a esta fantástica nação lhe é devido – Colômbia não é um daqueles lugares em que você fica 100% tranquilo durante sua estada (tal qual o Brasil para muitos), e embora já estivesse em meu segundo ano por lá, paguei mais um “miquito”

Estávamos às véspera do início do ano letivo e a maioria das 80 crianças e adolescentes da fundação deveria ter seu material escolar e uniforme preparados para isso. Entre outras tantas coisas que lá fazia, uma de minhas tarefas era providenciar tudo que dizia respeito à educação dos pequenos. Pois bem, após uma exaustiva pesquisa de preços e mil contatos para novas parcerias, lá fui eu a uma determinada confecção levar as medidas para a costureira.  Como de praxe, ao sair sempre levava uma ou duas crianças comigo. Assim elas podiam passear um pouquinho, ver além dos muros da fundação e da escola, conversar com outras pessoas, tomar um helado … Eles adoravam isso, tínhamos até uma escala! E não posso omitir que entre todos, a maior beneficiada era eu, por ver o brilho em seus olhos e o sorriso em seus lábios, além de usufruir de seus rostinhos para atrair novos parceiros para o projeto, confesso.

Mas de volta ao uniforme, lá fui eu no taxi, desta vez acompanhada por uma de “minhas” meninas então já pré-adolescente: Diana Morales. Após muitas voltas sem explicações, o taxi entra num terreno imenso, daqueles que os olhos não alcançam, todo irregular e deserto. O medo de sermos duas vítimas de abuso ou qualquer outra agressão num lugar ermo, abandonado pela civilização, me fez agir de imediato. Não pensei duas vezes e nos segundos em que ele manobrava, dei uma piscadinha daquelas que toda filha entende, e gritei “corre Dianita, corre!!” Saiu ela por uma porta e eu por outra, numa disparada sem precedentes naquele fim de mundo! De mãos dadas e esbaforidas encontramos um pequeno comércio na esquina e entramos pálidas, pedindo por abrigo. Escapamos vitoriosas de aparecer nas manchetes dos jornais locais. Os donos, muito solícitos, nos acolheram,  e nos serviram água, ouvindo atentos nosso relato da suposta tentativa de sequestro ou seja lá o que fosse. Parece que todas as milhares de recomendações de cuidado que recebi no Brasil mais do que nunca me faziam todo sentido… Colômbia era mesmo um perigo!

Alguns minutos depois, vimos pela porta da “vendinha” o tal taxista estacionando. Tímido e totalmente constrangido, o senhor lá mesmo de dentro do carro (afinal se descesse arriscaria que saíssemos em nova disparada), nos disse olhando fixamente em meus olhos: “Chica, lo que passa? Estás bien?” Eu, com as bochechas rosadas dada a enxurrada de adrenalina no sangue, troquei em segundos a agitação pela vergonha… aquele terreno sombrio, vazio, e irregular era mesmo o local da tal confecção. O taxista estava apenas manobrando para nos conduzir até lá embaixo de uma ribanceira que escondia a casa na qual a costureira dos uniformes nos aguardava, quando foi surpreendido por nossa fuga enlouquecida.

Enquanto Diana ria sem parar, eu queria mais era subir ali mesmo no voo que do Brasil me trouxera e sumir da frente não só do taxista, mas dos donos da lojinha e todos os vizinhos solidários que correram acudir la chica brasileña em perigo!  Aiai, perigo mesmo – descobri eu – é darmos rótulos a esse ou aquele povo, a um ou outro lugar. Perigo é criarmos ideias pre concebidas, seja de quem for, pelo motivo mais legítimo que possa nos parecer. Aprendi que carente mesmo não eram aquelas 80 crianças, com quem tive a honra de conviver por 2 anos, mas sim eu que, embora já adulta pouco sabia da vida, das pessoas e de seus corações.

Foi assim que voltei da Colômbia… Menos apegada às malas e mais sensível ao coração humano. Mais parecida com os donos daqueles olhinhos brilhantes diante de um sorvete em dia de sol. Mais humana, mais colombiana, mais brasileira. Somos gente, somos únicos. As delimitações geográficas e o nascer nesse ou naquele país não nos faz melhores nem piores. Apenas lindamente diferentes.

Publicado no livro Crônicas de Viagem, disponível em:  http://www.institutomemoria.com.br/loja.asp

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