Jeanine Rolim
Psicóloga, pedagoga, escritora e palestrante. Pós graduada na Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva de Reuven Feuerstein e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental. Com grande experiência em gestão educacional, atuou por dois anos junto à população de risco numa ONG colombiana. Atualmente é psicóloga clínica e palestrante nas áreas de psicologia e educação, além de comentarista de rádio e Tv nos temas relacionados a comportamento. Autora dos livros Bullying sem blá-blá-blá em suas duas versões (infantil, pais/professores).
alma

Curvas da Alma.

Foi-se o tempo em que era normal ser normal. Hoje, bonito mesmo, é estar dentro dos padrões midiáticos, sinônimo de perfeição. Alguns centímetros a mais e o ideal dá espaço ao inadequado, esquisito, feio. Uma olhadela nas redes sociais e logo se nota que a moeda mais valiosa do momento é uma cintura esguia, um bumbum empinado e o abdômen sarado. Na busca pelo corpo perfeito, esquece-se do quão perfeito ele já é por si só, capaz de manter a cada dia o sopro da vida pelo domínio de todas as capacidades fisiológicas necessárias para tanto.

Algo me diz que nos tempos atuais, nem mesmo Narciso se apaixonaria tão vigorosamente por sua imagem refletida no lago de águas cristalinas.  Uma ruguinha, um cabelo menos brilhoso que o devido… algo lhe desagradaria, assim como ocorreu com as ninfas que por ele se apaixonaram. Todas, por algum motivo, julgadas por ele não merecedoras do seu amor.

É de se pensar, o que realmente procuramos na caça desenfreada por um parceiro(a)? Semi deuses? Humanos? Quantas de suas imperfeições para além da aparência serão de fato toleradas? O que se fará diante de toda falta de valores sólidos? Como se lidará com a ausência de princípios? Fora a chatice dos papos vazios e os “mimimis” típicos de um infante. Poderão te salvar os gominhos do tanquinho dele? Ou o torneado das belas cochas dela?  Não minha cara amiga, sinto informar-te que não.

Pessoas são bem mais que suas embalagens fofas possam expressar. Ou ao menos deveriam ser! Somos esse conjunto inenarrável de emoções, sonhos, jeitos. Somos gente de carne e osso sim, mas também de alegrias, tristezas, histórias incríveis e outras terríveis. Pessoas são vivas, são vidas. Alto lá, o corpo tem seu valor, indiscutível! Que seriam de todas essas “parafernálias abstratas” sem uma casa que as abrigasse? Nada, bem verdade.  Mas daí a nos reduzirmos tanto, e justamente à parte mais perecível de nós, há uma distância. E que distância! Um espaço salutar, idílico, que tem a ver com o que se deixa daquilo que se é, com o que se espalha daquilo que se acredita…  tem a ver com a mágica possibilidade de construir sua história e fazer parte da de outros, com ou sem um corpo perfeito, mas sempre, absolutamente sempre, com uma alma íntegra.

Que os vazios em nós cada vez mais gritantes encontrem fontes de saciedade nas belezas não declaradas a olhos vistos, nos sorrisos nem sempre tão brancos, mas límpidos em sua sinceridade. Que ouçamos as batidas de um coração que pulsa pela vida ao invés de perscrutarmos as curvas alheias. E, sobretudo, que tenhamos a sobriedade de ver a alma do outro em sua pureza e grandiosidade, senti-la, tocá-la, sem qualquer classificação, eliminação e estigmatização baseada em estereótipos. Que sejamos honestos com a grandiosidade da vida. Ver além é o desafio.

 

Publicado em Revista Psicobela, disponível em: https://issuu.com/psicobela/docs/psicobela_digital_12_-_cybele_de_ca

 

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