Marcos Meier
Psicólogo, professor de matemática, escritor e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional a respeito de relacionamento interpessoal nas empresas, educação de filhos e formação de professores. Possui uma coluna semanal na RPC Tv, afiliada da Rede Globo no Paraná, na qual discorre sobre educação e comportamento. Sobre estes temas, é também comentarista de rádio há 12 anos e autor de mais de dez livros. Por sua contribuição à cidade, recebeu o título de cidadão honorário de Curitiba.
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Álbum de figurinhas.

Quando estou com meus amigos, sinto um bem estar enorme por causa do clima de companheirismo e de solidariedade. Conversamos descontraidamente. De vez em quando falamos de um ou outro, realçando suas peculiaridades, suas idiossincrasias, seu modo de agir que de alguma forma nos chamou a atenção. São as “esquisitices” próprias de cada um. E comentamos: “ele é uma figura”, “esse cara é uma figurinha carimbada” etc.

Este tipo de expressão está relacionado, no fundo, com nossas experiências infantis com algo muito importante naquela fase: nosso álbum de figurinhas. Como era bom chegar à escola e perguntar quem tem esta, quem tem aquela, e do clima de suspense quando abríamos os pacotinhos. Lembro muito bem do dia em que achei uma figurinha carimbada num dos pacotinhos que eu havia comprado com o dinheiro da venda de picolés de casa em casa: a sensação de ter descoberto um tesouro. Não queria trocá-la com ninguém. Não queria nem mesmo colá-la no álbum com medo de que fosse roubado, e com ele, meu tesouro. (Uma figurinha carimbada era uma figurinha especial, rara, de tiragem limitada e por isso mesmo, dificílima de ser encontrada).

Hoje não coleciono mais figurinhas. Coleciono livros, cadernos, coleciono boas e más experiências desta vida, sonhos, alegrias e tristezas. Guardo comigo as amizades que fiz e que ainda hoje me são importantes. E com tudo isto em mente, havia já há muito tempo, contado minhas experiências infantis ao meu filho, falando da persistência, do cuidado e de nunca desistir dos objetivos: se for para completar o álbum, então lute por isto!

Certo dia, quando ele tinha sete anos de idade, chegou com lágrimas nos olhos e não queria conversar. Depois de muita insistência, ele disse que o álbum comprado no dia anterior não poderia ser levado à escola. “É proibido”. Dá muito trabalho para as professoras fazer com que os alunos guardem as figurinhas e prestem atenção na aula. Imediatamente lembrei-me da minha infância e do meu álbum. Não falei nada a ele, apenas ouvi seu desabafo. A escola não conversou com as crianças e “para o bem delas” proibiu. Democracia unilateral.

No dia seguinte, ao levar meu filho para a escola, vi duas crianças escondidas atrás de um carro no estacionamento, abaixadas para não serem vistas e com as mochilas ocultando alguma transação proibida: estavam trocando figurinhas. Como proibir algo que faz parte da infância? Proibir a identificação com seus pais, ou avós?  Aquele ato inocente de trocar figurinhas estava sendo criminalizado.

Se não podem impedir que as figurinhas e os álbuns continuem entre eles que tal orientá-los? Ou de que forma poderiam incluir esta força característica da infância (colecionar) para servir de complementaridade pedagógica? Como realizar na prática a formação integral proposta pela escola?

Fiquei com um sentimento muito forte de que a escola tornou a vida daqueles “colecionadores” um pouco mais triste, e levou seus sonhos infantis para outra esfera, longe da sala de aula. A escola parece-lhes que não pode ser um lugar para ter sonhos ou prazer. Nem para se ter histórias para contar aos filhos ou aos netos.

Todos nós sabemos que dá muito trabalho para as professoras lidar com conversas, álbuns, figurinhas, trocas, cultura, tradição, compra e venda, troco, desconto e tantas outras operações “mercadológicas”. Entretanto, são temas da própria escola. Tem alguma coisa errada. E não é com as crianças.

 

Marcos Meier é psicólogo, escritor, professor de matemática e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional nas áreas de Educação, educação de filhos e relacionamentos. Seu último livro “Desligue isso e vá estudar” da editora Fundamento tem sido indicado pelas escolas a pais preocupados quanto ao uso de celular, videogames, internet ou tablets pelas crianças. Contatos pelo site marcosmeier.com.br

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Comentários
  • Marlise

    Oi Marcos…
    Sabe que estamos passando por uma situação parecida na escola do meu filho, ele estuda em período integral e tem um intervalo grande na hora do almoço. Neste tempo eles brincam de bafo com cartinhas que todas as crianças tem acesso, pois são baratinhas (lembrando que é proibido levar). Estes dias meu filho relatou que as professoras tem rasgado as cartinhas na frente deles e eu comprei a briga. Acho injusto elas pegarem um brinquedo que é deles e rasgarem humilhando os mesmos. Fiz a pergunta para ver se mudam de atitude mas não tive resposta, só tenho visto professoras revoltadas com as cartinhas ao invés de aproveitar as mesmas no ensino. Até fiz uma lista do beneficio das cartas com a diretora, mas estou esperando a pedagoga me chamar para conversar sobre o assunto.
    Obrigado, o texto vai servir de apoio para uma reflexão.

    • marcos

      A distração em sala de aula é complicada quando as crianças tem algo assim, ou seja, realmente é trabalhoso para as professoras, no entanto é possível fazer um combinado com as crianças que possa ser bom para todo mundo. Boa sorte!!

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