Marcos Meier
Psicólogo, professor de matemática, escritor e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional a respeito de relacionamento interpessoal nas empresas, educação de filhos e formação de professores. Possui uma coluna semanal na RPC Tv, afiliada da Rede Globo no Paraná, na qual discorre sobre educação e comportamento. Sobre estes temas, é também comentarista de rádio há 12 anos e autor de mais de dez livros. Por sua contribuição à cidade, recebeu o título de cidadão honorário de Curitiba.
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Aluno: um ser “sem luz”?

Aluno: um ser “sem luz”?

 

Certa vez ouvi em uma palestra que a palavra “aluno” significava “sem luz”. Verificando na internet vários artigos que corroboravam com a ideia, passei a divulgá-la em minhas palestras e em alguns artigos. Minha postura, claro, foi sempre a de crítica, contrário ao fato de considerarmos as crianças como se nada tivessem no cérebro, pois a ciência e a simples observação mostram o contrário. As crianças são cheias de luz, de criatividade, inteligência, disposição para aprender, curiosidade e uma necessidade muito grande de se tornarem cada vez mais autoras em vez de “copiadoras” da luz do mestre. Essa foi sempre minha mensagem.

Entretanto, a palavra aluno não significa “sem luz”. Isso é um mito, um equívoco, uma interpretação superficial da raiz da palavra. Segundo o dicionário Houaiss “aluno” vem do latim Alumnus, que significa “criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo”, der. do verbo alére “fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer” etc. Ou seja, aluno significa “aquele que necessita de leite”. E o que tudo isso quer dizer? Em primeiro lugar significa que eu transmiti um conceito etimológico errado e assumo aqui que fiz isso. Em segundo lugar, mais uma vez aprendi que fontes de internet devem ser sempre verificadas, pois há muito lixo espalhado pela rede. Em terceiro lugar reforço a ideia de que apesar do significado da palavra aluno não ser “sem luz”, muitos professores ainda tratam as crianças assim. Agem como se os alunos fossem seres incapazes de pensar por si mesmos e os mantém na posição passivo-aceitante que não questiona e não cria, apenas copia.

Um bom professor interage com seu aluno de forma a desenvolver a autonomia, a criatividade, o gosto pela leitura e a vontade de continuar estudando. Um professor assim é um mediador da aprendizagem e poderá se tornar ainda melhor se conhecer a teoria do recém-falecido professor israelense Reuven Feuerstein.

Sua teoria a “Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva” ou teoria da “mediação” fundamenta a prática do professor, especialmente no que diz respeito à forma de interagir com os alunos.

Sendo mediados, os alunos não apenas aprendem os conteúdos escolares, mas aprendem a contextualizar, construir significados, relacionar conceitos de diversas disciplinas e, principalmente, a aprender a aprender. Ajudar o aluno a desenvolver essa autonomia não é fácil. O professor precisa deixar de agir de acordo com os paradigmas do passado e passar a agir como um mediador. Entretanto, como afirmei acima, ainda hoje temos professores que centralizam tanto o conhecimento que os alunos sempre solicitam seu julgamento; “professor, tá certo?”, “professor, você pode corrigir?”. Se o aluno faz essas perguntas muitas vezes, significa que os critérios que determinam o certo ou o errado não foram apropriados por ele e, como consequência, sua autonomia não está sendo desenvolvida. Além disso, não adianta esperar que o aluno ao final do processo educativo torne-se autônomo, se a autonomia não for desenvolvida no dia a dia de sala de aula.

Não se pode continuar a permitir posturas autoritárias e vazias de professores que “empurram”, “passam”, “transmitem” informações aos alunos. Essa forma de agir não possibilita a vivência da democracia, nem o desenvolvimento da cidadania. Ensinar priorizando a memorização de conceitos sem que tenham sido construídos pelos alunos é não acreditar no potencial deles nem permitir que se tornem autores.

É preciso mudar a concepção de criança, de adolescente, de aluno. O “mini-adulto” não existe. A criança “tabula-rasa” jamais existiu. O aluno “lactente” precisa de leite, mas principalmente aprender a alimentar-se de comida sólida assim que possível.

As crianças são inteligentes, criativas, ativas, construtoras de idéias, geradoras de informações, crianças que buscam seus próprios caminhos. Educar não é mais possível com a metodologia do passado, com a metodologia da aula “show”, acompanhada de alunos passivos copiando e memorizando as “magníficas” idéias já formatadas pelos livros ou pelos professores. É preciso coerência. Se tivermos crianças criativas, precisamos de aulas com abertura para a criação. Se quisermos alunos autônomos, precisamos de aulas que propiciem e fomentem a decisão do aluno e sua consequente responsabilização. A esperança de que o aluno “ao final do processo” seja cidadão, autônomo, criativo, independente, e com tantas outras características fundamentais para a vida na sociedade atual, será totalmente frustrada se essas características não forem construídas no próprio processo de educar. Ou seja, para que o aluno ao final do processo possa ser autônomo, deverá ser durante. Uma das melhores formas de tudo isso acontecer é por meio da mediação da aprendizagem.

A mediação da aprendizagem não é apenas uma proposta de ação, ou proposta metodológica para que os processos de ensino, aprendizagem e de avaliação tornem-se mais eficazes. A mediação é o próprio processo.

Precisamos ajudar nosso aluno a deixar de ser consumidor passivo de informações para ser gerador de conhecimento. E isso só vai ocorrer se a Educação priorizar construção em vez de cópia. Que a luz do aluno seja valorizada!

 

 

Marcos Meier é mestre em Educação, psicólogo, professor de matemática, escritor e palestrante. Uma das maiores autoridades brasileiras na teoria da modificabilidade estrutural cognitiva de Reuven Feuerstein.

 

 

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