Marcos Meier
Psicólogo, professor de matemática, escritor e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional a respeito de relacionamento interpessoal nas empresas, educação de filhos e formação de professores. Possui uma coluna semanal na RPC Tv, afiliada da Rede Globo no Paraná, na qual discorre sobre educação e comportamento. Sobre estes temas, é também comentarista de rádio há 12 anos e autor de mais de dez livros. Por sua contribuição à cidade, recebeu o título de cidadão honorário de Curitiba.
baleia

Baleia Azul e as cores da vida.

Quantos jovens ainda vão morrer para que o tema do suicídio seja levado mais a sério? É sabido que há um aumento do número de suicídios quando a imprensa divulga um caso, pois de alguma forma o fato vira modelo e aumenta a coragem dos jovens que estão na fase do planejamento. Entretanto falar sobre o tema com seriedade e propor soluções contribui para que os pais ou os próprios jovens reflitam sobre a vida e não levem à frente suas intenções. É esse nosso desejo.
Recentemente a imprensa divulgou casos de tentativas de suicídio relacionados ao jogo Baleia Azul, presente na internet, que propõe 50 tarefas a serem cumpridas uma por dia e comprovadas a uma pessoa “julgadora” que avalia a veracidade. São tarefas como fazer cortes no braço ou na perna, pendurar-se em lugares perigosos, tomar medicamentos que os façam ficar doentes, passar um dia inteiro assistindo a filmes de terror ou violentos e assim por diante. Tudo deve ser comprovado por fotos ou vídeos enviados a esse juiz. A 50ª tarefa propõe o suicídio. Não importa se a coisa toda é assim mesmo ou se é brincadeira de mau gosto, o problema é que se houvesse apenas um caso de auto agressão, já seria condenável e não deveríamos minimizar os efeitos de tal “brincadeira”.
Em tudo isso há dois pontos a considerar. O primeiro deles é que não devemos permitir a banalização do sofrimento do adolescente como vem ocorrendo nas redes sociais. Correntes como “50 passos para arrumar seu quarto” ou qualquer outra brincadeira do mesmo nível despreza a dor real de muitos jovens. A adolescência é uma fase difícil em que os meninos e as meninas passam por transformações no corpo, na vida social, emocional, familiar e cognitiva. Não é nada fácil. A preocupação em estar adequado, em pertencer a um grupo ou ser aceito pelos pares é constante e nem sempre compreendida. Nós adultos já passamos por essas preocupações e hoje olhamos para trás e aceitamos o fato de que nos fizeram crescer ou ser o que somos, no entanto para quem está na fase a percepção é outra, é de dor. Assim, o melhor que podemos fazer é compreender e acolher, jamais repreender, desprezar ou tentar diminuir a dor por meio de brincadeiras ou gozações.
O segundo ponto, não menos importante, é o julgamento que a sociedade faz a respeito da educação que os pais dão a esses jovens. É fácil dizer “esse menino foi mal criado”, “essa menina não recebeu princípios”, “os pais desse jovem estavam onde?” e assim por diante. Os pais erram sim, mas a maior parte deles com o objetivo de acertar. Por amor permitem que usem a internet, que os filhos estejam presentes nas redes sociais ou passem horas no videogame. Como adequar os tempos? Cada realidade é uma, cada filho tem uma personalidade diferente e reage de forma única frente aos limites impostos. Claro que há princípios da educação que podem ajudar, mas eles não são os únicos que influenciam a vida do jovem. Portanto, jamais podemos culpar os pais. Vamos orientá-los, não julgá-los. Acolhê-los, não incriminá-los.
E, em vez de lutarmos contra todas essas forças destrutivas de jogos mal intencionados ou de “amigos” que incentivam a morte, que tal trabalharmos todos para a valorização da vida? Isso se faz com programas antibullying que ajudam a perceber a importância de participar de projetos de apoio a orfanatos, a asilos, a ações sociais significativas. Jovens que se envolvem com práticas sociais construtivas simples, como arrecadar agasalhos, fraldas ou leite em pó para os necessitados veem o mundo com outros olhos, pois percebem que seu próprio sofrimento diminui na presença da dor do outro.
Quando o mundo deixa de ser a exclusividade da rede social, do próprio quarto, dos aparelhos tecnológicos e passa a ser ampliado pela construção de um bem maior, a vida começa a valer a pena e a ter mil cores, não só a azul.
Marcos Meier, educador.

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Comentários
  • Adriana

    Depressão, eu tive!
    Sim, eu tive depressão! E foi o pior momento da minha vida!
    Na época tive ajuda médica de Psiquiatra que me medicou, de Psicóloga que me ouviu e de amigos (alguns inimagináveis ou que eu nem conheci pessoalmente) que me acolheram .
    Felizmente não ouvi conselhos do tipo do Jogo da PREGUIÇA azul:
    11- reconhecer publicamente que não é que as pessoas não te entendem , vc que é idiota mesmo e quer fazer drama por causa disso,
    27- nas reuniões de família, ser simpático, é tão chato pra vc aguentar sua família, quanto é pra sua família aguentar vc e,
    50 – não se matar, seu imbecil.

  • Ane

    Texto lindo, vale a reflexão.
    Obrigada.

  • leila de carvalho

    Tive depressao quando era jovem ,familia desistruturada e abuso sexual , isso me levou a pensar e suicidio , acho que minha salvacao foi participar de um grupo jovem catolico no qual visitava orfanatos e asilos e fiz camapnha para arrecadar materias e alimentos para esses seres que nao tinha ninguem e ver a dor e a solidao alheia fez eu esquecer a minha dor e a minha solidao , ajudando eu fui ajudada .

  • Lília Mara Duarte

    Excelente texto
    Parabéns

  • Georgete mendes

    Parabéns Marcão. Lindo ver o seu crescimento pessoal e profissional. Deus continue derramando de sua graça sobre sua vida. Get

  • João Rodrigo Gabriel de Lima

    Parabéns Caro Professor Marcos Meier!!!
    Dá opinião quem entende do assunto…

  • João Rodrigo Gabriel de Lima

    Parabéns Caro Professor e Doutor Marcos Meier!!!
    Dá opinião quem entende do assunto…

  • Kátia Cristina da Silva

    Ótimo. Tenho uma filha adolescente. Sei perfeitamente o que é isso e sofri muito ao lado dela. Hoje ela se sente diferente, vive outra vida e está feliz pois passou por experiências que a ajudaram no crescimento emocional.

  • Fabiola

    O melhor texto que li sobre o assunto! O fato é que sempre estamos prontos pra apontar o dedo, julgar!!!
    Mais amor, por favor! Amor ao próximo e a si mesmo!!

  • Fatima machado doa santos

    Comcordo em numero genero e grau. A familha bem estruturada jamais vai ser destruída por
    pactos demoniacos.Deus te abençoe cada vez mais.

    • Rafael

      Oi, não eh bem assim, pode ser a família mais perfeita que for, Adão e era eram perfeito pecaram, quanto mais nois meros seres humanos imperfeito, só p quem realmente passa por depressão profunda e não aqueles que passam por tristeza e sim depressão profunda sabe realmente o que eh sentir, eu vivo e moro sozinho quase 2 anos, ninguém fala cmg muito menos meus pais, as pessoas só querem seu bem p ficar d seu lado p sugar suas energias e cair fora, esses médicos “psicólogos” tão pouco se lixando p que tem depressão e muito menos sabem o que eh sentir isso, eh como uma mulher tentar explicar p um homem como eh ser grávida, e esses remédios que passam acabam cm sua “vida” real, vc fica sem sentimentos, depressão não tem cura, depressão eh uma fase terminal tipo de quem tem câncer e sabe que alguma oportunidade vai querer tirar a vida, ainda nao tive a minha mas tentei e ainda espero o mais breve possível, se morre um e algumas semanas depois tudo volta como que nada tivesse acontecido, somos mero pó, bjs.

  • Vera Mattos

    Sábias palavras, Marcos! Recebi por whats as dicas do jogo da preguiça azul e, fiquei pensando como alguém pode ter tamanha falta de sensibilidade com um tema tão delicado. A falta de respeito com o ser humano agora personificado pelo grave problema de depressão dos adolescentes, jovens, crianças me põe a pensar na capacidade do outro apontar o dedo e, não prestar atenção no

  • ANA MARIA TOLEDO DE CARVALHO

    Repliquei o seu texto pois quando o li, vi todos os meus pensamentos dos últimos dias expressados em palavras. Obrigada Professor e Mestre!

  • Sara

    Esse reflexão é que deve ser disseminada, esclarecedora.

  • Simone

    Excelente!!!

  • Débora

    Ótimo texto e verdadeiro!! Tomara que muitos leiam este texto.

  • Tio Nava

    O conceito de ACOLHIMENTO, perdido em nossa sociedade, fez com que o “chinelo azul” se tornasse o novo “educador”. Reforço a mensagem do texto: Pergunte hoje para seu filho como foi na escola; Se há alguém lhe incomodando; Qual passeio gostaria de fazer considerando a realidade financeira em que se encontram; Diga o quanto ele é importante em sua vida e o quanto o ama, olhando em seus olhos; abrace-o. Essas ações devem ser cotidianas, não esporádicas, e espontâneas. Um abraço do Tio Nava, obrigado pelo texto!

  • José Roberto Vinharski

    Tentar cortar o mal pela raiz. Implementar Lei que proíba a veiculação deste tipo de conteúdo em qualquer mídia.

  • Noscilene

    Parabéns por trazer à tona uma discussão importante para refletirmos em vez de julgarmos o certo é o errado, Prof.Marcos Meier vamos colocar mais cores na vida!

  • Cida Alves

    Excelente texto!

  • Luiz Carlos Osorio

    Marcos:
    Como quem há quatro décadas trabalha com e escreve sobre adolescentes assino embaixo de tuas observações
    Quando em meados da década de 70 psiquiatras das 3 Américas criamos o Fórum panamericano para o estudo da adolescência nos intrigava mais que tudo por que em lugar de estar às voltas com os projetos de vida característicos desta faixa etária tantos adolescentes os transformavam em projetos de morte com o então incipiente uso de drogas Não encontramos apenas uma resposta,mas certamente estava entre os fatores.primordiais a falta de.um futuro previsível para explicar esta e outras condutas suicidas dos jovens.Como fazer planos para o futuro quando a espécie humana se auto-destroi nas guerras que se sucedem e no ecocidio que pratica? Muitas reflexões a se fazer em torno do fenômeno do jogo da baleia azul. Abraços Osorio

  • Adriana Karam Koleski

    Gostei muito do texto. Trata com respeito e sem julgamento uma situação que o jogo da baleia azul apenas evidenciou. A adolescência é, sem dúvida, um período de grandes transformações e elas não vem sem dor e conflitos que precisam ser antes acolhidos e tratados com seriedade e muito amor.

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