Marcos Meier
Psicólogo, professor de matemática, escritor e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional a respeito de relacionamento interpessoal nas empresas, educação de filhos e formação de professores. Possui uma coluna semanal na RPC Tv, afiliada da Rede Globo no Paraná, na qual discorre sobre educação e comportamento. Sobre estes temas, é também comentarista de rádio há 12 anos e autor de mais de dez livros. Por sua contribuição à cidade, recebeu o título de cidadão honorário de Curitiba.
telex

Chega de continhas!

Chega de continhas.

Chega de ensinar continhas de “mais”, de “menos”, de “vezes” e de “dividir”. É muito tempo perdido.  Para compreender meu argumento, leia a ilustração a seguir:

Uma empresa contratou um curso de mil horas-aula para que seus funcionários aprendessem a utilizar o velho e ultrapassado telex, uma grande inovação tecnológica de um tempo em que não havia celulares nem internet. Para quem nunca ouviu falar, aí vai uma explicação: O sistema era parecido com uma máquina de escrever que, ao ser teclada, transformava cada letra em uma sequência correspondente de furos numa fita de papel. Quando a fita era “lida” pela máquina, esses “furos” eram transformados em sinais elétricos e enviados pela linha telefônica para outra máquina de telex que “lia” os furos e escrevia o texto correspondente à fita. Assim, o receptor, em qualquer lugar do mundo, podia ler a mensagem. Foi o dinossauro das mensagens de texto. Depois vieram o fax, o e-mail, a mensagem de texto por celular, o whatsapp, etc… logo teremos mais novidades..

O problema é que a empresa fez o curso agora! Os funcionários diziam:

– Pra que aprender isso se a gente pode utilizar o celular ou o e-mail?  E a empresa dizia:

– É para que vocês possam entender melhor o processo da comunicação textual. – Os funcionários replicavam:

– Não precisamos entender o funcionamento, só precisamos enviar e receber as mensagens. A empresa contra-atacava:

– Mas como vocês vão desenvolver o raciocínio e a inteligência se não souberem usar de forma adequada essa tecnologia?

– Mas chefe, isso já passou! A gente já usa smartphones, celulares, internet, redes sociais, aplicativos para celular para bater papo… não há vantagem nenhuma em aprender telex!

Nada resolvido, a empresa de forma ditatorial obrigou todos os funcionários a fazer o curso. Uma aula por dia, todos os dias da semana por cinco longos anos. Ao término do curso, quase todos os funcionários foram aprovados (alguns desistiram pelo caminho e foram demitidos). Alguns não aprenderam direito, mas conseguiram nota suficiente para serem aprovados. Depois disso, ninguém jamais voltou a usar o telex, pois continuam usando o celular, muito mais prático e eficiente.

Achou tudo um absurdo? É exatamente isso que as escolas fazem com as crianças. Ensinam a fazer continhas! AINDA ENSINAM CONTINHAS! Durante cinco anos, com uma aula de matemática por dia, totalizando mil horas-aula, as crianças precisam aprender a fazer adições, subtrações, multiplicações e divisões por meio dos algoritmos escritos numa folha de papel, as famosas “continhas”. Quando enfim se livram delas, nunca mais as usam. Qualquer calculadora de R$ 1,99 faz todas as operações e com total precisão, o que nem sempre ocorre com as crianças, lápis e papel. Na verdade, mesmo para nós, adultos, é uma total falta de inteligência tentar dividir 4.807 por 209 usando lápis e papel. A gente nem pensa em não usar a calculadora.

Parem de enganar as crianças e tragam a calculadora para a sala de aula! É rápido, útil, eficaz, moderno e preciso. Usem as mil aulas para REALMENTE desenvolver o raciocínio e a inteligência na resolução de problemas em que elas não precisem perder tempo com continhas, mas com discussões a respeito de juros compostos, financiamentos, estimativas, cálculo mental (já vi operadora de caixa de supermercado não saber o que fazer com os dez centavos que lhe dei para ajudar no troco), raciocínio lógico, estatística, probabilidade e tantas outras coisas importantes que poderiam ser ensinadas desde pequenas caso houvesse tempo! Mas preferem gastar o tempo com algo que jamais vão utilizar novamente.

E se vocês acham que não sei do que estou falando, já fui professor em curso superior de licenciatura em matemática e tive que ajudar alguns alunos em questões básicas de lógica! Se mesmo aqueles que gostam de matemática a ponto de decidir pela docência, por que não desenvolveram o raciocínio lógico? A resposta é simples: a escola os fez perder tempo com continhas em vez de ensinar coisas úteis para o desenvolvimento do raciocínio abstrato.

As escolas ainda estão discutindo se “vale a pena” usar a calculadora, mas os computadores já estão na mão dos alunos. Quando a educação acordar e perceber que já passou da hora de introduzir a calculadora nos currículos, elas já serão obsoletas, pois os aplicativos para resolução de problemas complexos de matemática já estão sendo baixados nos smartphones.

Os professores mais resistentes diriam: “Mas a gente não ensina só o algoritmo, a gente ensina o funcionamento dele”. É o mesmo que ensinar os porquês dos furos nas fitas de telex, dá até para aprender, mas para que serve?

Outros reclamariam: “O que vamos fazer se não ensinarmos as continhas?” A esses diremos: tudo aquilo que for útil para que nossos alunos saibam tomar decisões envolvendo matemática. Por exemplo, financio o carro em 24 vezes com juros de 3,2% ou em 36 vezes com juros de 3,4% colocando na poupança algumas prestações futuras? É melhor comprar um imóvel e alugar ou investir a grana em aplicações bancárias seguras? Etc.

Os pessimistas: “Pronto, agora só falta dizer que os alunos não precisam mais pensar. Sem matemática básica, como aprenderão cálculos avançados?” Resposta: E as continhas ensinam a pensar o que? Sobe um, empresta do outro, baixa um zero…. sério, que espécie de raciocínio é esse? Algoritmo não tem nada a ver com raciocínio matemático básico. As operações sim, não as continhas. Nossos alunos precisam compreender o significado da adição, subtração, multiplicação e divisão para que saibam como e quando usar a calculadora e resolver os problemas matemáticos. Esse é o caminho. Não tem nada a ver com “coloque o segundo número embaixo do primeiro de forma que os últimos algarismos estejam na mesma coluna” blá-blá-blá.

Muitas pessoas capazes, inteligentes e bem sucedidas profissionalmente dizem odiar matemática porque tiveram muitas dificuldades e concluíram “não gostar”. Imagine se essas pessoas pudessem ter tido a oportunidade de aprender a usar a calculadora (sim, a escola deve ensinar a usar) e, com ela, resolver os problemas. Com certeza outras oportunidades profissionais teriam surgido e uma percepção muito mais realista a respeito da própria inteligência ou capacidade teriam construído. Portanto, chega de continhas!

Obs: Obviamente que um professor não pode simplesmente parar de ensinar os algoritmos, (as continhas) pois é preciso que haja uma mudança no currículo em níveis nacionais, pois se uma escola não ensinar e a outra cobrar, isso inviabilizaria que uma criança mudasse de escola, de cidade etc… mas temos que nos unir nessa luta e começar a solicitar que a mudança seja feita o mais breve possível!

 

 

Marcos Meier é licenciado em matemática pela Universidade Federal do Paraná e foi professor no ensino fundamental, no ensino médio e na licenciatura em Matemática. Cursou psicologia e é mestre em Educação. Autor de vários livros, atualmente tem se dedicado a palestras no Brasil todo principalmente sobre o tema interação professor-aluno e mediação da aprendizagem segundo a teoria de Feuerstein. Contatos pelo site www.marcosmeier.com.br

 

 

 

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Comentários
  • Sandro Alex Fernandes

    Marcos,
    Venho a algum tempo lendo seus artigos, assistindo suas entrevistas e observando sua forma nada ortodoxia de tratar assuntos que o mercado oferece de forma engessada a sociedade e você desmistifica com uma leveza que é de assustar. Parece que o ato de quebrar paradigmas e tabus é a sua especialidade. Admiro muito seus posiciomentos, mas a pergunta que não quer calar: Qual a metodologia para ensinar a um filho se utilizando desses seus conceitos arrojados sem que isso o torne uma pessoa preguiçosa? Será que não seria necessário pelo menos estabelecer alguns
    conceitos sobre Matemática básica ou Financeira antes de entregar uma HP ao nosso filho?
    Já tenho filhos e netos, tenho 51 anos e serei pai novamente daqui 2 meses, adoraria criar meu filho nesse novo modelo de educação sem muita “frescura”.
    Caso seja possível responda as minhas indagações, pois seriam de muita valia e se não fosse pedir muito gostaria muito de manter esse contato, já o sigo nas redes sociais e tenho certeza que um dia ainda mudaremos essa forma retrograda de ensinamento que o nosso “sistema” atual tenta nos empurrar goela abaixo. Obrigado Marcos.

    Att.
    Sandro Alex Fernandes
    Adm.

    • marcos

      Oi Sandro, a metodologia mais adequada é a Mediação da Aprendizagem, segundo o autor Reuven Feuerstein. Ele propõe que por meio de uma interação de qualidade a própria inteligência, autonomia e criatividade da criança sejam desenvolvidas. O bom mediador não dá água para matar a sede de seu aluno ou filho, ele põe sal na boca dele! Para que tenha ainda mais sede, ou seja, para que continue procurando cada vez mais crescer e aprender sozinho!

  • Viviane

    Sensacional, concordo cm o mestre, sempre achei um absurdo cm toda a tecnologia e recursos avançados existente hj no mundo ter que aprender matemática sem usar calculadora… É contraditório e retrógrado!

  • Vânia

    Texto fantástico! !!!

  • Luciana Teixeira

    Bom dia professor, eu concordo com suas colocações com uma ressalva: o sistema precisa mudar. Pois os vestibulares estão ultrapassados. Os professores acabam trabalhando em sala de acordo com aquilo que será cobrado em concursos, vestibular e afins. Eu uso calculadora em sala. Acho importante saber usá-la, pois muitos não sabem. Então é necessário mudar o sistema e não somente o Curriculum. Abraços

  • Lucia.

    Concordo com o professor, em se falando de matemática. Mas temos um problema também com outra matéria que não agrega nada para os alunos. É a danada da matéria línguas, e em melhor questão a o inglês. Pois essa ninguém aprende nada sobre no ensino fundamental e médio. Então por que manter essas matérias no currículo escolar. Pois se alguém precisar do bendito inglês precisa fazer curso a parte. E não serve pra nada. Quando lá no curso superior ou quando já formado de qualquer maneira precisa fazer curdo a parte. Então por que manter essa matéria? Perda de tempo . É preciso rever o urriculo escolar urgente.

  • Franciele

    É isso mesmo! Gostei muito desse texto.
    Parabéns professor Marcos.

  • Lidiane

    Gostaria de aprender a ler e escrever mais rápido

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