Marcos Meier
Psicólogo, professor de matemática, escritor e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional a respeito de relacionamento interpessoal nas empresas, educação de filhos e formação de professores. Possui uma coluna semanal na RPC Tv, afiliada da Rede Globo no Paraná, na qual discorre sobre educação e comportamento. Sobre estes temas, é também comentarista de rádio há 12 anos e autor de mais de dez livros. Por sua contribuição à cidade, recebeu o título de cidadão honorário de Curitiba.
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Filhos trancam o corredor.

 

– Alô?

– Querido, temos um problema.

– O que aconteceu?

– Os gêmeos bloquearam o corredor dos quartos e não deixam os irmãos maiores passar.

– E por que fizeram isso?

– Disseram que não vão deixar ninguém passar até que você prometa aumentar a mesada. Nem a empregada consegue passar para fazer o serviço dela.

– Aumento da mesada? Nem pensar. Eles que durmam no corredor, o nosso tá livre?

– Sim, o acesso para o nosso quarto está desimpedido.

– Por que eles não vieram conversar comigo? Por que estão prejudicando o acesso dos irmãos que não tem nada a ver com o problema? Por que não fecharam o nosso quarto? Não vou fazer nada. Nem vou pra casa hoje, pois viajo daqui a pouco a trabalho. Eles que continuem com essa manifestação ridícula, um dia vão aprender a conquistar seus objetivos lutando com inteligência, mas isso? Eles não percebem que estão prejudicando os irmãos?

– Bem, já tentei conversar, argumentar, etc… mas com eles não tem conversa. Os irmãos estão chateados, revoltados e muito tristes com tudo isso e falaram que é muito injusto o que os gêmeos estão fazendo, pois segundo eles, deveriam trancar o corredor do nosso quarto e não do deles.

– É obvio! Aí eu até iria conversar. Amanhã dormiremos sossegados em nosso quarto. Vamos ver se eles se tocam da total ineficácia da manifestação e da injustiça com os irmãos.

No dia seguinte o pai deu uma bronca nos meninos e exigiu que liberassem o corredor. Prometeu que um dia iria revisar o valor da mesada, mas que agora não seria possível. Os gêmeos desconsolados, fizeram o que o pai mandou. E tudo voltou ao normal. A mesada continua a mesma.

Ridícula a história? É exatamente isso que está acontecendo em nosso país. Qualquer reivindicação é transformada em bloqueio de estradas. “Trancaram a BR”. “Fecharam a estrada”. “Queimaram pneus”. E quem são os maiores prejudicados? Nós mesmos! É o próprio povo prejudicando o povo. Enquanto a gente fica horas aguardando no carro ou no ônibus para que nosso direito constitucional de ir e vir possa ser garantido pelas autoridades, essas mesmas autoridades vão de helicóptero. Nem passam pela BR. É a manifestação da total falta de boa vontade de criar novos mecanismos de luta. Que tal irmos ao deputado que mentirosamente prometeu ajudar e entrar em seu escritório com centenas de pessoas, já que eles sempre dizem “minha porta está sempre aberta”? Cerquemos a casa do prefeito, governador ou presidente que jurou mudanças e manteve tudo como está, ou piorou o que já era ruim. Vamos criar coisas mais inteligentes para que as manifestações sejam eficazes, mas não vamos prejudicar quem não tem nada a ver com a história, ou melhor, quem não merece. Não perturbemos os trabalhadores, caminhoneiros, motoristas e todas as pessoas que precisam passar por ali. Talvez todas essas alternativas não sejam, também elas, eficazes, mas líderes criativos, revolucionários e verdadeiros podem dar ideias ainda melhores e abandonar de vez os injustos, inapropriados e ineficazes fechamentos de estradas, pois trancar uma BR no interior do Paraná não afeta nenhum deputado em Brasília que só fica sabendo da notícia, à noite, pela televisão.

E por favor, poder público, pare de fazer vistas grossas para essa total falta de respeito para com os cidadãos. Luta legítima é uma coisa, vandalismo é outra.

 

Marcos Meier, educador.

 

 

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Comentários
  • Bernadete

    Não vão aos políticos, justamente, porque os tratam como os pais citados no texto: agora não é possível, o país está em crise, veremos o que é possível fazer e bla, bla bla. Infelizmente o famoso empurrar com a barriga que se vê.

  • Tiago Augusto

    Marcos, dizer isso é desconhecer a luta do povão. Vc tem muita gente que curte sua página, com essa postagem sua talvez essa informação chegue até esses políticos.
    Faço parte de um movimento chamado levante popular da juventude e no nosso movimento existe uma coisa chamada escracho, os escrachos servem para protestar diretamente contra quem for (mídia, políticos, ditadores, etc).
    Vc disse para irmos diretamente nos gabinetes e tal. Vamos juntos? Entre em contato

  • Tiago Augusto

    Marcos, estado não é igual a pai e mãe. Direitos não é igual a mesada. Me explique como se compara coisas incomparáveis

  • Tiago Augusto
  • Rosiane de Camargo

    Perfeito! Concordo plenamente e mais, queima de pneus além de prejudicar o meio ambiente, e isso nos inclui certamente, também estraga as nossas já nada boas, rodovias…. infelizmente o analfabetismo político persiste. Cidadania então…. estamos longe de saber o que significa e agir realmente como cidadão!

  • Rosangela Lopes Depieri

    Plenamente correto! Concordo contigo Marcos Meier! Lutar pelos direitos não significa prejudicar quem não merece!!! Temos sim direito de lutar, mas sem ofender a dignidade de ninguém!

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