Marcos Meier
Psicólogo, professor de matemática, escritor e mestre em educação. Palestrante nacional e internacional a respeito de relacionamento interpessoal nas empresas, educação de filhos e formação de professores. Possui uma coluna semanal na RPC Tv, afiliada da Rede Globo no Paraná, na qual discorre sobre educação e comportamento. Sobre estes temas, é também comentarista de rádio há 12 anos e autor de mais de dez livros. Por sua contribuição à cidade, recebeu o título de cidadão honorário de Curitiba.
MACACA

HUMOR TRISTE

Humor triste.

 

Está cada vez mais chato brincar nos textos escritos, usar ironia ou simplesmente ser bem humorado. Muitas pessoas não entendem!

Uma ironia expressa o contrário de nossas opiniões, mas se o sujeito não tem abstração suficiente, vai pensar que estamos sendo radicais, contraditórios ou exagerados.

Uma piada encaminha o leitor numa direção e o faz concluir algo lógico e então o desfecho vai para outra direção totalmente diferente, e essa é a graça. Mas se a pessoa não consegue antecipar os fatos, não vai conseguir se surpreender com o final, pois para ela não houve mudança de rumo, já que nem rumo ela havia percebido existir.

Piadas brincam com estereótipos, com saberes populares arraigados, não são movimentos sociais conscientizadores nem pretendem ser. Se uma piada funciona com um estereótipo, é porque uma grande parte das pessoas pensa daquele jeito ou sabe que muitas pensam assim. Não é intenção do autor da piada, ironia ou brincadeira educar as pessoas, muito menos aumentar o preconceito contra grupos minoritários, sejam quais forem. A intenção é provocar o riso, a gargalhada solta. Só. Quando a maioria não rir de uma piada sobre bêbados, por exemplo, é que o problema social do alcoolismo está na pauta das mudanças e das lutas sociais há tanto tempo que brincar com isso trará constrangimento. O que o autor de piadas de bêbados vai fazer? Mudar. Vai deixar de contá-las porque não dão mais o efeito esperado. Mas se o povo continua rindo é porque a reflexão sobre esse drama social é pobre, fraco, insuficiente e a escola, família, igreja e outras instituições não estão fazendo sua parte (por não poder, não conseguir ou não querer). Nesse caso por que acusar o piadista? Ele simplesmente não assumiu a responsabilidade de educar nem de combater o alcoolismo.

O outro lado da história é que há humoristas que pegam pesado, que exageram, que constrangem mais que provocam o riso. Esses estão usando um humor que não nos faz rir, mas sentir desconforto. É um humor triste. Mas mesmo nesses casos eles precisam ter o direito de mostrar seu humor, ainda que não gostemos dele, pois se o direito de comunicar lhes for tirado, quais serão os próximos a serem calados? Logo ninguém mais poderá se expressar. O público que lota um espetáculo de um sujeito agressivo, vulgar, que faz piadas nojentas, quer ouvir o cara, aquelas pessoas se alimentam de suas piadas. Não podemos simplesmente dizer que elas não têm o direito de ouvir coisas tão baixas nem dizer que o humorista em questão não pode ter o direito de se manifestar. Quando o cara alugar um teatro por milhares de reais, pagar mais outro tanto para divulgação e uma grana ainda maior para a organização do espetáculo e apenas dez pessoas comparecerem, vai mudar o repertório. Quando não provocar o riso, saberá que está fora do lugar e da época adequada. Enquanto houver casa cheia, que se encontrem. Obviamente que incentivar o preconceito ou fazer apologia ao crime é proibido por lei, então que a Justiça faça sua parte, mas é preciso que saibam interpretar o texto em questão, pois se os acusadores não tiverem um mínimo de preparo intelectual, concluirão que tudo é crime. Humor é diferente de ofensa. Ofensa é crime.

Há também a influência da personalidade. Minha avó não ria de piadas em que alguém se machucava ou sofria. Ela ficava com dó. “Ah, coitaaaaaado!”. Ela não compreendia que era uma piada? Claro que compreendia, ela própria adorava contar as suas, mas escolhia um tipo de piadas em que ninguém sofria. Mas jamais nos censurava, pois era inteligente o suficiente para compreender que apesar dela própria não rir, era uma piada.

Além das idiossincrasias, há as características coletivas. Já vi movimentos nas redes sociais (que só satisfazem egos, mas não mudam a realidade) fazendo campanhas para que uma determinada rede de televisão tirasse do ar esse ou aquele programa. Eu nem vejo tais programas, meu melhor ataque é mudar de canal. Se todos fizessem isso, por que o programa continuaria sendo exibido? É simples, eles só estão na grade televisiva por fazerem um sucesso danado. Tem gente que não consegue compreender nada mais complexo que aquilo, então deixem o povo assistir. E o que fazer para que o povo aprenda a assistir a programas mais inteligentes, a ouvir piadas e rir, compreender ironias, sarcasmos, parábolas, hipérboles, chistes ou quaisquer outras manifestações da expressão humana? Educação. Enquanto não investirmos em educação de qualidade, não haverá continuidade no desenvolvimento de uma sociedade mais justa, mais humana, menos preconceituosa e mais bem humorada. Ah, e que não tenha colado na prova de interpretação de texto.

 

Marcos Meier.

 

 

 

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